Vivemos uma nova revolução tecnológica com IA que transforma economias, serviços públicos e a forma de trabalhar. No entanto, o Brasil precisa avaliar se sua infraestrutura sustenta essa transformação, especialmente no que diz respeito aos data centers.
O país abriga o maior ecossistema de prestadoras de banda larga fixa do mundo, com uma extensa rede de Prestadoras de Pequeno Porte (PPPs) que alcançam municípios de todos os portes, incluindo áreas rurais e regiões economicamente menos atrativas. Esse ecossistema dá dinamismo à transformação digital local, em especial no atendimento a escolas, hospitais e governos locais.
Na esfera de data centers, o cenário é diferente. Dados do DataCenterMap indicam 195 data centers de grande porte no Brasil, enquanto, globalmente, existem cerca de 11 mil. Além disso, cerca de 58% desses centros estão concentrados no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, repetindo um padrão de centralização que limita o crescimento digital em outras regiões. Ainda, 60% da infraestrutura digital brasileira está hospedada em servidores estrangeiros, sobretudo nos EUA, o que afeta soberania e aumenta riscos de segurança.
Apesar desses números, o Brasil não parte do zero. Possui uma extensa malha de fibra óptica e entre 70 mil e 100 mil Pontos de Presença (POPs), principalmente operados por PPPs regionais. Uma porcentagem desses POPs está apta a evoluir para micro ou mini data centers regionais, conhecidos como Data Centers Edge, aumentando a proximidade de processamento e reduzindo latência.
Investir na descentralização de data centers representa uma decisão estratégica para gerar empregos qualificados, estimular o desenvolvimento regional e fortalecer a soberania digital do país. Além dos ganhos técnicos, uma arquitetura distribuída favorece a sustentabilidade, já que centros regionais podem tirar proveito de fontes locais de energia renovável, como solar e eólica.
A Associação NEO defende a criação de uma Política Nacional de Data Centers, com foco na descentralização territorial e no aproveitamento da infraestrutura existente. A proposta envolve incentivos fiscais, acesso a crédito para modernização de POPs e a criação de edge nodes regionais; diretrizes técnicas padronizadas para PPPs em municípios médios e pequenos; parcerias com universidades e institutos federais para transformar instalações em hubs regionais de inovação e integração com políticas de transformação digital, inclusão social e sustentabilidade.
O Brasil tem energia, conectividade e capital humano; o que falta é vontade política, visão estratégica e coragem para descentralizar, abrindo caminho para uma infraestrutura digital mais soberana e sustentável.