Mais de 95% do tráfego internacional de dados atravessa cabos de fibra óptica instalados no leito dos oceanos. O Brasil, conectado por cerca de 17 cabos internacionais ativos, testemunha uma geopolítica de conectividade dominada por operações estrangeiras.
Desde 2016, as grandes plataformas passaram a investir em cabos sob comando próprio, deslocando o eixo de decisão para cidades como Miami ou Virginia Beach. O EllaLink, inaugurado em 2021, liga Fortaleza a Sines, buscando contornar o território americano e reduzir dependências.
A chegada da Starlink ao Brasil, em 2022, acelerou a conectividade em setores remotos, com crescimento expressivo de assinantes e uso por autoridades locais. Em 2025, a operadora somou mais de 600 mil clientes, situando o Brasil entre os maiores mercados globais da rede; em 2026, superou 1 milhão de usuários.
Em 2026, a SpaceSail recebeu autorização da Anatel para operar no Brasil, com a ambição de lançar até 14.000 satélites na constelação Qianfan, começando com 324 unidades. O acordo com a Telebras, firmado em 2024, prevê o uso de gateways terrestres e um Centro de Operações de Rede, integrando infraestrutura chinesa ao ecossistema regulado brasileiro.
Especialistas alertam para o risco de dependência dupla: cabos controlados por Estados Unidos e uma constelação liderada pela China, ambos com interesses estatais. O governo revisou propostas regulatórias para criar zonas de ancoragem estratégicas, padronizar procedimentos de segurança cibernética e incentivar a construção de infraestrutura nacional — um passo para transformar o Brasil em polo de referência sem depender de Washington ou Pequim.
Para além disso, há um debate sobre o papel do Brasil no BRICS+ e a necessidade de um protocolo de interoperabilidade entre membros, com padrões de governança de dados e gestão de espectro. Enquanto isso não acontece, o país segue como laboratório prático de modelos de negócio que podem redefinir o equilíbrio de poder na conectividade global.