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ONU: 300 mil vítimas no crime cibernético

Image © Convergenciadigital
Relatório da OHCHR aponta que traffico e escravidão alimentam golpes online em várias nações, com foco no Sudeste Asiático.

Um relatório divulgado pelo escritório das Nações Unidas para Direitos Humanos (OHCHR) revela que práticas associadas ao tráfico de pessoas, servidão e escravidão persistem nas operações de golpes cibernéticos, com especial ênfase no Sudeste Asiático. Segundo o documento, essas atividades representam uma das economias criminosas que mais crescem globalmente, baseada no recrutamento de pessoas forçadas a cometer fraudes online sob ameaça e coerção. Estima-se que mais de 300 mil indivíduos, vindos de pelo menos 66 países, tenham sido traficados para centros de golpes ativos entre 2021 e 2025.

As entrevistas com sobreviventes, provenientes de países como Bangladesh, China, Índia, Mianmar, Sri Lanka, África do Sul, Tailândia, Vietnã e Zimbábue, descrevem condições de trabalho degradantes em campamentos de fraude instalados no Camboja, Laos, Mianmar, Filipinas e Emirados Árabes Unidos. As autoridades ouvidas na investigação também foram consultadas, incluindo policiais, agentes de fronteira e representantes da sociedade civil.

Entre as atividades criminalmente atribuídas aos trabalhadores forçados estão golpes com criptomoedas, fraudes em apostas, esquemas de romance, falsificação de identidade e extorsão online. Muitos relataram ter aceitado ofertas acreditando tratar-se de empregos legítimos, apenas para descobrir que não teriam condições de sair dos locais de trabalho.

As jornadas são descritas como extenuantes, com relatos de até 19 horas de trabalho diárias e metas financeiras impostas sob ameaça de punição física. Um sobrevivente da Tailândia descreveu exigências de geração de renda elevada para manter o controle dos empregadores, enquanto um trabalhador do Sri Lanka relatou punições como imersões prolongadas em recipientes com água — práticas que caracterizam cárcere de água em alguns casos.

O estudo enfatiza que, em muitos casos, as pessoas enquadram-se na definição internacional de vítimas de tráfico, mesmo quando houve algum consentimento inicial. A combinação de engano, abuso de poder e privação de liberdade torna irrelevante o consentimento, segundo as normas internacionais. Em certas situações, as condições também configuram escravidão ou servidão, principalmente quando há compra e venda de trabalhadores entre centros de golpes.

Os investigadores destacam ainda que o recrutamento depende fortemente de redes de confiança: cerca de 75% das vítimas afirmaram ter sido abordadas por alguém conhecido, como amigos ou familiares, ou por meio de redes sociais que pareciam oferecer oportunidades legítimas. O relatório também aponta o uso crescente de tecnologias digitais e inteligência artificial para identificar vulnerabilidades financeiras e direcionar ofertas, criando senso de urgência para dificultar checagens. Além dos abusos físicos e psicológicos, muitos sobreviventes relataram retaliações legais após a libertação, incluindo detenções e acusações relacionadas às atividades fraudulentas às quais foram obrigados a participar. Mesmo diante disso, cerca de 70% indicaram o desejo de migrar novamente em busca de trabalho no futuro.

 

Convergenciadigital

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