O Mobile World Congress (MWC) 2026, realizado em Barcelona no início de março, reuniu quase 105 mil participantes de 207 países e territórios, com cerca de 2.900 expositores e mais de 1.700 palestrantes. O evento consolidou-se como o principal palco global para discutir o futuro das telecomunicações e da conectividade digital, funcionando como um verdadeiro showroom de decisões tecnológicas e de negócio para a próxima década.
Entre os temas debatidos, emergiram dez tendências estruturais que ajudam a entender para onde o setor caminha. O primeiro grupo enfatiza a IA no núcleo das redes, com a emergência de redes orientadas por intenção e a ascensão da Telco-grade AI, definida como categoria de produto. Iniciativas como Open Telco AI buscam criar um ecossistema com modelos, dados e métricas específicos para telecom, incluindo o Telco Capability Index.
Outro bloco aponta que o 5G Standalone e o 5G-Advanced estão virando motores reais de monetização. A indústria deverá, segundo o debate, completar o 5G para liberar serviços baseados em redes programáveis e opções de network slicing orientadas por contexto, abrindo novas oportunidades B2B com SLAs para eventos grandes, ambientes industriais e campuses corporativos. Ao mesmo tempo, as APIs de rede e o conceito de network as code ganham tração, com demonstrações que exemplificam a entrega de recursos de rede como serviços para desenvolvedores.
O ecossistema Open RAN entra em uma fase de interoperabilidade prática, com ênfase em serviços automáticos, pipelines de CI/CD, telemetria padronizada e mecanismos de rollback seguros. Essa desagregação, embora promova inovação, aumenta a complexidade de integração e a superfície de ataque, exigindo governança e segurança mais robustas.
A sexta tendência envolve a convergência entre telecom e computação, com AI-RAN e a visão 6G AI-native aproximando redes de plataformas de computação em nuvem e IA, exigindo gestão de ciclos de vida de modelos, consumo energético e conformidade com SLA rigorosos. O 6G ganha também um roadmap concreto, com protótipos, explorações de espectro e conceitos como o “personal device cloud”.
Em paralelo, a telco cloud e o core como serviço avançam, com demonstrações de um core 5G operando na nuvem pública, capaz de suportar até 1 Tb/s e simular até um milhão de assinantes. Essa evolução exige mudanças organizacionais profundas, incluindo práticas de SRE, DevSecOps e gestão de software em larga escala.
Além disso, o edge federado avança como estratégia regional, especialmente na Europa, com iniciativas para federar infraestruturas de edge computing e competir com hyperscalers em aplicações com baixa latência e soberania de dados. Por fim, a conectividade satelital direta ao dispositivo (NTN/Direct-to-Device) ganha relevância, com testes de serviços D2D, modems com suporte a satélite e avanços na segurança, da verificação de número à criptografia pós-quântica.
Em resumo, o MWC 2026 sinaliza a transição para a chamada IQ Era — onde conectividade e inteligência se entrelaçam para sustentar uma infraestrutura de redes cada vez mais inteligente, aberta e segura. Fábio Pinho reforça que o setor precisa alinhar governança, segurança e confiabilidade para transformar inovação em operações estáveis.