Três técnicos de um ISP foram assassinados por integrantes da facção Bonde do Maluco em 16 de dezembro, no bairro Marechal Rondon, em Salvador, enquanto instalavam cabeamento de fibra óptica. O episódio, longe de ser isolado, faz parte de uma série de ataques a prestadoras de SCM e a seus trabalhadores em diversas regiões do país. Em 2025, os ataques oscilaram entre incêndos a veículos e unidades, sequestros, ameaças e cobranças de valores para atuação das empresas, além de roubos de infraestrutura e coerção de comunidades.
O interesse de organizações criminosas pela banda larga é associado à alta rentabilidade do setor. Segundo publicação da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, o SCM seria a “maior fonte de recursos do crime organizado”; o abastecimento de internet ganha destaque entre as atividades dominadas pelos criminosos, que buscam eliminar a concorrência mediante controle de redes e serviços. A partir dessa lógica, a inviabilidade do domínio das redes por facções aparece como uma das frentes mais promissoras para reduzir ataques contra provedores.
Especialistas lembram que a atuação no SCM envolve a tomada de territórios e a imposição de monopólios para serviços amplamente consumidos, como gás e, historicamente, o conhecido Gatonet. Apesar de o lucro do SCM não ser sempre o maior entre as atividades criminosas, ele tende a ser estável e previsível, o que atrai grupos como facções criminosas e milícias para o controle de ISPs em áreas dominadas.
Logo após os episódios de violência, a Anatel deu início a um conjunto de medidas com o Plano de Ação para Combate à Concorrência Desleal e para a Regularização da Prestação do Serviço de Banda Larga Fixa. O acórdão prevê ações como a suspensão de outorga para operadoras com até 5 mil acessos e a obrigação de que prestadoras e parceiros interrompam o fornecimento de meios para exploração do SCM a empresas sem autorização.
O plano também propõe que a Superintendência de Fiscalização fortaleça a cooperação com forças de segurança e que haja o cruzamento de dados entre as listas de contratantes de SCM e as autorizadas, para identificar provedores que atuem indevidamente. Mesmo diante de dificuldades — como a existência de vínculos entre provedores autorizados e milícias — a iniciativa visa inviabilizar operações clandestinas e facilitar ações de cassação de outorgas quando necessário.
Apesar das dificuldades, a implementação eficaz dessas regras pode reduzir a incidência de ataques a ISPs e desestimular o envolvimento de facções no mercado de banda larga fixa, preservando a segurança de trabalhadores e assegurando maior competição no setor.