Especialistas reunidos em São Paulo durante o encerramento do Capacity LATAM destacaram o avanço da infraestrutura digital na região, ao mesmo tempo em que enfatizaram entraves em energia, regulação e na necessidade de maior coordenação regional para consolidar esse movimento.
Os participantes ressaltaram que a América Latina, assim como o Brasil, vive uma fase de ampliação da infraestrutura digital, com crescimento de serviços em nuvem, IA e aplicações que exigem alto volume de dados, mas ainda precisam superar gargalos regulatórios e de energia para manter o ritmo.
Um dos pontos centrais foi a mudança de papel da região no mercado digital: não apenas como mercado consumidor, a LatAm começa a abrigar processamento, armazenamento e circulação de dados em maior escala. “A gente está vendo uma mudança clara: não é mais só consumo. A América Latina começa a participar da produção e do processamento de dados em escala” , afirmou João Walter, da Ascenty.
Essa tendência acompanha a expansão de data centers de maior porte, redes de alta capacidade e projetos voltados a aplicações que exigem menor latência e maior poder computacional, sinalizando que a região já entra no radar de investimentos de longo prazo em infraestrutura digital.
Ao discutir a integração da infraestrutura física, os debatedores destacaram que data centers, redes terrestres e cabos submarinos devem funcionar de forma conectada desde o início do projeto, formando uma estratégia única e integrada. “Não dá mais para pensar em data center isolado da rede ou da conectividade internacional. Tudo precisa estar conectado desde o início do projeto”, disse Alessandro Molon, da Dig.ia.
A disponibilidade de energia foi apontada como um dos principais limites para a expansão: mais do que geração, é essencial garantir transmissão e entrega da energia nos locais onde os investimentos estão direcionados. “Não é só ter energia, é fazer a energia chegar onde os investimentos estão indo. Esse é o grande ponto”, frisou Daniel Peiretti, da Cirion.
A simplificação regulatória foi outro tema frequente. “Se nós removermos os obstáculos regulatórios, tudo indica que os investimentos podem vir para cá. Temos vantagens competitivas, mas o desafio é regulatório”, alertou Molon, destacando ainda que a necessidade de múltiplas autorizações pode atrasar projetos. Cabos submarinos foram citados como exemplo de área onde a simplificação pode acelerar investimentos e reduzir incertezas.
Os executivos também destacaram a fragmentação dos mercados latino-americanos: para competir globalmente, é preciso pensar na região como um todo. “A gente ainda opera como mercados separados. Para competir globalmente, precisamos pensar como região”, enfatizou Walter.
Concluída a avaliação, os especialistas concordaram que a América Latina vive uma janela concreta de oportunidade para ampliar sua participação na economia digital global. O sucesso, no entanto, dependerá da capacidade de coordenar investimentos, remover entraves e transformar vantagens competitivas em execução, com previsibilidade para atrair capital. “Os investimentos querem vir para cá, se a gente não atrapalhar, já ajuda muito”, sintetizou Molon.